sábado, 2 de agosto de 2014

No rastro da morte

Abotoar o paletó de madeira. Dar o último suspiro. Virar presunto. Ir para a terra dos pés juntos. Encerrar sua existência. Comer capim pela raiz. Virar comida de vermes. Fechar os olhos pela última vez. Partir dessa pra melhor. Virar alma penada. Acertar as contas com Deus. Virar estrela. Ir para o além. Bater as botas  

Afinal, como é morrer?


Texto: Juliana Frandalozo












Photo credit: Cheer Up, Man! via photopin (license)




O velho portão de metal dá acesso a uma rua asfaltada, por onde sobe a gente que caminha lentamente. Pelo caminho desviam de vendedores de serviços, velas, flores, planos, religiões enquanto olham as pequenas casas alinhadas, algumas enfeitadas por pequenas árvores, flores e monumentos de pedra e mármore. Cada uma tem um nome, ou vários, datas, às vezes uma frase. Apesar do movimento de feriado de Finados, o silêncio é imperante. Os 60 mil moradores do cemitério São Francisco de Assis, também conhecido por Cemitério do Itacorubi, descansam. Eternamente.

Debaixo de sol forte de início de novembro em Florianópolis, as pessoas procuram seus parentes e amigos.

- Débora, ele falou que é acabando o muro na segunda fileira.

- É pra cá, dava pra ver a rua.

- Não é pra lá, é ali embaixo.

- Pega o telefone e liga pra sua tia.

- Dia de Finados, o trabalho é muito. - diz o administrador do cemitério, Osmar Ferreira, olhos azuis e sotaque apressado de manezinho - É muita gente procurando informação.

Osmar rabisca em um mapa amarelado e roto sobre a mesa da casa amarela, à entrada do cemitério, de onde administra as pequenas moradas com ajuda de um computador. Administra os vivos "porque morto não incomoda". De estranho só o caso da vaca fantasma.

- Seu João, aquele ali - aponta para um dos funcionários - estava na ronda noturna quando me ligou dizendo que tinha uma vaca no cemitério. Eu disse a ele, João, você pega uma corda, laça a vaca e leva pro matadouro. Quando ele voltou, a vaca tinha sumido. Não caiu dentro de sepultura, por onde é que a vaca ia sair? Era uma vaca fantasma, né?

As poucas lápides com epitáfios parecem deixar falar os mortos. "Surfo agora nos mares do céu", diz Geraldo Oliveira. "A morte é apenas mudança", filosofa Charles Hartt. Outros jazigos falam por imagens. Têm brasões do Avaí, Palmeiras, Corinthians, Santos, Vasco, São Paulo. Alguns com guitarras em mármore, em metal, em desenho.

O que se pensa da vida e da morte pode-se resumir no cemitério. Clichês para tratar de um assunto delicado como a morte? Sim, há montes deles e alguns vocês vão reconhecer ao longo da reportagem, afinal, morrer é o clichê mais batido que existe.

Até as divisões sociais. "As madames vêm dois, três dias antes do feriado de Finados para botar flor, arrumar. No feriado mesmo vem o povão", diz a vendedora de flores, Roseli Anhaia, em frente ao portão de metal. "A gente até pensa nisso quando seleciona os produtos pra vender. Traz os vasos mais chiques e caros antes, porque é o que elas gostam de comprar", Roseli revela sua estratégia de venda.

A ala da comunidade alemã é uma área reservada que parece um jardim, gramado milimetricamente aparado, arbustos podados, árvores grandes e estátuas de mármore branco. O cemitério já foi inaugurado com essa ala particular, em 18 de novembro de 1925.

- Quem foi o primeiro morto do cemitério? - pergunto ao administrador.

- Tá ali na primeira rua, Waldemar Vieira.

- Morrer custa caro?

- São R$ 280 por lote.

- R$ 280 pra ter onde cair morto. E quem não pode pagar?

- Quem não tem dinheiro, o município paga a gaveta.

Com a vaga garantida é a vez das funerárias. Elas cercam o cemitério, oferecendo seus préstimos na hora da morte. Se o cliente for previdente e planejar os funerais ainda em vida, paga mais barato, em prestações. O preço é tabelado pela prefeitura e varia de R$ 290 a R$ 3.980 por serviços como transporte, capela, preparação do morto e flores. Se o defunto for gordo, o preço aumenta em 60% porque o caixão é reforçado.

Quem não quiser ser enterrado pode escolher a cremação que sai por R$ 2.930 para o morto precavido que fez o plano. "Plano vitalício", explica o atendente com voz grave de agente funerário, para assegurar que o plano funerário não expira se a pessoa resolver não morrer pra já. Para quem morre de repente, sai mais caro, R$ 3.700.

As cinzas são entregues em uma urna para "levar à praia, se quiser", diz o agente. Mas, se o morto acinzentado não gostar de praia tem a opção de virar diamante, na Suíça, por R$ 12.000. Também há a opção de enviar as cinzas para o espaço em um foguete da Nasa. O serviço custa US$ 60.000, mas, pelo menos em Santa Catarina, ninguém nunca foi ao espaço depois de morto.

O morto que não tem tantas pretensões, ou não tem família, pode ficar descansado. O município é responsável pelo enterro de indigentes. Mesmo sem funerais, há lugar garantido na gaveta. Não é tão ruim assim. No cemitério mais famoso do mundo, o Père Lachaise, em Paris, a dançarina Isadora Duncan, morta em 1929, repousa em uma bela gaveta de mármore negro.

A sete palmos

Abrir um buraco com sete palmos de profundidade para enterrar os mortos é a forma mais comum de destinar os cadáveres desde a Pré-História, quando o  homem de Neandertal começou a pensar em coisas mais complexas. Nas diferentes culturas e civilizações que se seguiram a morte cumpriu um importante papel social e cultural.

O psicólogo Rodrigo Caputo aponta os rituais funerários em diferentes povos ao longo da história para afirmar que mesmo com diferenças culturais, a morte é tratada como um acontecimento social. "A maneira como uma sociedade se posiciona diante da morte e do morto tem um papel decisivo na constituição e na manutenção de sua própria identidade coletiva", afirma em seu artigo O homem e suas representações sobre a morte e o morrer.

No livro Cidades dos vivos, o professor de arquitetura da USP, Renato Cymbalista, explica que os cemitérios têm participação nessa identidade. Essas construções - na forma que conhecemos hoje - surgiram, no Brasil, a partir do século XIX quando em 1801 o príncipe regente de Portugal enviou uma carta ao governador da província de São Paulo ordenando que fosse construído um cemitério a certa distância da cidade para que "os miasmas pútridos que exalam os mortos" não afetassem a saúde dos vivos.

Segundo o professor essa foi uma grande novidade. A partir de então, os mortos passaram a ser mal-vindos, fedidos e perigosos à saúde dos vivos. A recomendação do príncipe regente fazia parte de uma mudança sanitarista que estava apenas começando na Europa naquele período, surgida da necessidade de se evitar epidemias como a Peste Bubônica, também chamada Peste Negra, que dizimou um terço da população europeia no século XVII.

Isso contribuiu para mudar a condição social do morto e a relação dos vivos com a morte na cultura europeia que influenciou fortemente a nossa, americana. "Além dos significados higiênico, monumental e religioso, os cemitérios públicos darão uma resposta urbanística a demandas de ordem afetiva, e os mortos reconquistam seu lugar dentro do organismo urbano. Morando em sua própria cidade, os mortos não são mais um problema. Ao contrário, são parte fundamental da solução urbanística de todas as cidades, que já não podem mais ser imaginadas sem seus cemitérios", reitera Cymbalista.

A cidade dos mortos do Itacorubi já não tem pra onde crescer. No lugar onde todos descansam, os únicos que trabalham são Osmar Ferreira e seus onze funcionários.

- Meu neto diz que sou o dono do cemitério - brinca Osmar.

São, em média, quatro mortos por dia que se mudam para a cidade. Não há espaço para novas sepulturas, apenas gavetas. Dos que chegam, 80% a 90% já têm o jazigo da família. Houve dois casos de funcionários que se aposentaram e pouco tempo depois voltaram para o cemitério. Para serem sepultados.

A morte instiga o mistério e o desconhecido. Provoca dúvidas, Um grupo de religiosos de paletó e gravata escuros debaixo de um sol escaldante se aproxima. Dizem ser representantes de Jesus Cristo. Dizem ter respostas, mas na verdade eram só perguntas. De onde vim? Para onde vou? O que faço aqui? São questões que movimentam não só as religiões, mas também setores da ciência. Afinal, morre o corpo e a alma, o espírito, a energia vital, vai pra onde?

 

A ciência e a morte

A proximidade do mundo científico com o espiritual tem um espaço garantido na física quântica, que veio ganhando espaço a partir da década de 1960. O professor indiano de física da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, Amit Goswami estuda a permanência da consciência após a morte e acredita que esse é o caminho para comprovar a reencarnação. Para ele a física quântica pode comprovar que sem a existência de um conjunto superior - algo que se pode chamar de Deus - o universo é inconsistente.

A questão da manutenção da consciência após a morte pode ser interpretada a partir da lei da conservação da matéria deduzida pelo químico francês Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794). Segundo a lei, "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Quando o físico Isaac Newton publicou, em 1687, a Lei de Ação e Reação, talvez não pensasse que ela pudesse ser usada para explicar como funciona o carma. Mas no século XVII, a ciência e a religião eram tão unidas, que a igreja acabava sendo a grande detentora dos saberes científicos, além de se dedicar à física e à matemática, Newton também estudava teologia e alquimia. E costumava dizer que a verdadeira filosofia era pensar sobre a morte.

Não era uma forma inovadora de pensar. Os filósofos gregos Platão e Aristóteles tinham um vasto rol de pensamentos sobre o assunto e influenciam cientistas desde então. Eles enxergavam a morte como única certeza inevitável, já que não havia como escapar dela.

Em 1595, os ensaios de Michel de Montaigne foram publicados com uma grande quantidade de linhas dedicadas a meditar sobre a morte que, para ele, era o mesmo que meditar sobre a liberdade. “Nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda a sujeição e constrangimento”.

Outro cientista famoso, Albert Einstein, em seu livro Como vejo o mundo, revelou o que pensava dessa dualidade. "Afirmo que o sentimento religioso cósmico é o mais forte e mais nobre estímulo à pesquisa científica". 

Com a quantidade de perguntas que a morte instiga, não falta campo de pesquisa para a ciência. E pelo menos na medicina, onde o convívio com a morte é mais evidente, os avanços em pesquisa têm contribuído para trazer luz à hora da morte.

A única certeza desse mundo é que a gente vai morrer.

O coração para. A circulação do sangue também. As células do cérebro são as primeiras a morrer, levam de três a sete minutos. O sangue começa a se concentrar nas partes inferiores do corpo, causando palidez. Em três horas os músculos enrijecem. Em 24 horas o cadáver esfria. Conforme as células morrem, as bactérias começam a decompô-lo.


O momento da morte é descrito de várias formas pela medicina, até porque não se morre de um só jeito. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, OMS, a maior causa de morte no mundo é o câncer, em várias formas, seguido de doenças cardiovasculares. Isso significa que grande parte das pessoas morre em hospitais, ou passam por eles antes do fim. Muitos médicos continuam o tratamento dos pacientes mesmo com poucas chances de cura, mas aumenta o número de profissionais que concordam que quando há prognóstico reservado - que não há possibilidade de cura - prosseguir com o tratamento é prolongar o sofrimento do paciente.

Cuidar da qualidade de vida e de morte dos pacientes terminais é um dos princípios estabelecidos pela OMS sobre cuidados paliativos. A psicóloga Márcia Lisbôa confirma, em sua dissertação de mestrado, a importância de se aceitar, nesses casos, que não há cura. Ela estudou os efeitos terapêuticos dos rituais de despedida em iminência da morte em familiares de pacientes terminais no Hospital Universitário da UFSC e conclui que a despedida beneficia tanto os familiares quanto o paciente.

No artigo em que avalia, com sua equipe, as decisões médicas em casos onde a cura não é mais possível, a coordenadora da Residência Médica de Medicina Intensiva do Hospital Universitário de Florianópolis, Rachel Moritz, afirma que o fato de grande parte das mortes ocorrerem nos hospitais "tornou imprescindível que os profissionais dessas instituições aprendam a conviver e a tratar do indivíduo durante o processo do morrer". Também destaca que os cuidados com pacientes terminais dependem da "aceitação da finitude do ser humano e do reconhecimento da incapacidade médica de “curar sempre”.

A psicoterapeuta Bel Cesar no livro Morrer não se improvisa relata como a não aceitação da morte pode perturbar os últimos instantes de vida de uma pessoa. A autora trabalhou com pacientes terminais com vários tipos de doenças e relata alguns casos no livro, vividos por ela ou por outros profissionais.

Como o médico Roger Cole, que relata o caso de John, um rapaz de 26 anos com Aids, já muito debilitado, em estado terminal. O rapaz estava bastante revoltado pelo tratamento que ele sabia que não traria cura, só ia prolongar seu sofrimento, quando o médico conversou com ele. Depois de tentar conseguir respostas de John que fossem além de evasivas, o doutor percebeu que não adiantava falar em vida eterna, que para o paciente significava sofrimento eterno. Teria de dizer apenas o óbvio, ele estava morrendo e logo tudo terminaria. O rapaz aceitou melhor essas palavras que qualquer ajuda que haviam-lhe proporcionado, pois, finalmente alguém não lhe pedia para lutar uma batalha perdida. Ele morreu dois dias depois, com a família ao redor, tranquilamente. 

No livro Da Morte, Rubem Alves diz que a morte é nossa única conselheira. Quando temos a consciência de que vamos morrer, nos sentimos livres para não nos importar com mais nada. "O que você deve fazer, ao se sentir impaciente com alguma coisa, é voltar-se para a sua esquerda e pedir que a morte o aconselhe". Ou, como escreve Paulo Leminski em um poema, "morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma".

No cemitério do Itacorubi, a cidade onde os moradores não respiram, os conselhos da morte aparecem nas lápides, as únicas que representam seus habitantes. De acordo com a família Barcellos, "encontrarás mais segurança e paz, garantindo-te o êxito no caminho da vida maior". Ironicamente, nas cidades dos vivos, a paz também é um conselho muito ouvido. Quem sabe ao ouvir as palavras da morte, viver tenha um novo sentido.




Reportagem publicada em 2014, produzida e editada por Juliana Frandalozo,

"Para quem a vida sempre foi um mar sem fim"


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