domingo, 21 de setembro de 2014

Despedida

O projeto UmaFoca nasceu como contrapartida de uma bolsa de intercâmbio acadêmico internacional pelo programa Escala Estudantil da Asociación de Universidades Grupo Montevideo, AUGM, financiada pelo Santander Universidades no primeiro semestre de 2009 na Universidad de Santiago de Chile, em Santiago, capital do Chile.

Seu objetivo foi cumprido naquele ano, com posts sobre a preparação, os trâmites de ida e depois sobre a vida de intercambista, passando pelos assuntos mais variados e sempre tentando mostrar diferenças e igualdades culturais entre Brasil e Chile, economia, política, sociedade, manifestações sociais, meio ambiente, comportamento, dicas de viagem, turismo e eventos, o cenário multicultural e acadêmico. Enfim, todo tipo de assunto sob o ponto de vista de uma foca, uma jovem aprendiz jornalista.

Na volta, mantive o blog, pois ainda havia tanta história pra contar que eu não podia encerrar o projeto sem mostrar o que acontece depois do intercâmbio, a readaptação à rotina, novos desafios e o quanto a experiência muda as nossas vidas.

Hoje tenho uma sensação de dever cumprido. O blog teve uma vida feliz e vai ficar na rede para ser útil a quem precise dessas informações. Me despeço desse projeto para me dedicar a outros novos e com a certeza de que UmaFoca e essa foca aqui, jamais deixarão de ser focas, de se interessar pelo mundo com aquele olhar curioso de quem valoriza a primeira vez de tudo e vive as experiências ao máximo.

Aos leitores que nos acompanharam nessa aventura errante e aprendante: Obrigada! Gracias!

E com a certeza de viver com a sabedoria de nossos padrinhos, Pablo Neruda e Amyr Klink, deixamos nossa timeline com suas palavras, que nos guiaram durante esse tempo de blogagens.

"Se trata de que tanto he vivido que quiero vivir otro tanto".

"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ser a mudança que queremos no mundo

Mahatma Gandhi era um homem com ideias, defeitos e limitações, mas provou que não é necessária uma revolução armada para construir uma mudança. O importante para ele sempre foi ser. Ser e agir como pensamos. Ser a mudança que queremos para o mundo.

Sobre ser, vou contar algo que tenho presenciado há 10 anos. As pessoas têm variadas visões sobre o vegetarianismo. Para mim, vegetarianismo não é só uma escolha gastronômica, é um movimento. É um ato ativista ambientalista, político-social que vai além da mera decisão de deixar de comer carne e derivados. É uma escolha pessoal. É optar pela não-agressão a animais, à terra, aos ecossistemas, ao ser humano. É escolher conscientemente dentre as variadas opções de consumo, aquela que é a mais justa, a mais solidária, aquela que provoque o menor sofrimento possível a toda a forma de vida existente.

Hoje é muito fácil ser vegetariano. A agricultura agroecológica veio prá ficar, é possível visitar os sítios desses agricultores. Eles produzem todo tipo de alimento, até galinha, boi, vaca, com o menor sofrimento.

Daí você tira que um ovolactovegetariano que compra tudo o que consome no mercado, sem se preocupar com a forma que o alimento foi produzido ou transportado, não é mais vegetariano que aquele que come ovos de galinha, Daquela caipira, criada solta, que bota ovo quando quer e não presa numa gaiola iluminada 24 horas por dia, a um nível de estresse desumano.

Não é mais vegetariano aquele que toma leite de soja de uma grande empresa como a Bunge que contamina as produções dos pequenos agricultores com pólen transgênico, que forçou a liberação política dos transgênicos não porque acredita que a transgenia possa realmente diminuir o uso de insumos agrotóxicos, mas porque é mais lucrativa.

Esse vegetariano que toma leite de soja não é mais vegetariano que aquele que toma leite da vaca criada no pasto, tratada com carinho, com respeito e cuidado. Ordenhada com o mínimo de dor, respeitando sua produção natural.

O vegetariano que corre para a seção de orgânicos do mercado e paga seis reais numa alface embalada, a meu ver não é mais vegetariano que aquele que sabe o horário da feira agroecológica, conhece o nome dos produtores e compra a alface deles por um real.

(Só um adendo: agricultura orgânica é o primeiro passo para a cultura sem agrotóxico. A cultura realmente certificada sem agrotóxico é a agroecológica.)

O vegetariano não precisa se chamar de vegano, porque não precisa de rótulos, apenas de ação. O veganismo é um movimento impossível para os dias de hoje, a menos que você aceite viver isolado, sem transporte, sem facilidades industriais, plantando a própria comida, tecendo a própria roupa e construindo as próprias ferramentas, a própria morada, sem nada além das próprias mãos. Deve ser uma vida boa, apesar de dura, mas temo que para mim não sirva para a vida toda. Sou bicho do mato, preciso me forçar a conviver com os humanos, para viver com eles, para me humanizar.

Também seria difícil para mim colocar os animais num cercado com a alegação veganista de que nenhum deles deve trabalhar. Nós animais humanos trabalhamos, porque nos privar do convívio e da ajuda dos animais? Para quê tanto orgulho e radicalismo? Acredito que a evolução do pensamento nesse sentido deva ir para o convívio respeitoso com os animais, não seu isolamento de nossa sociedade.

Por fim, acredito na vida natural tal como Thoureau vivia. Ele se isolava numa cabana à beira do rio por meses, com um punhado de grãos e vivendo da caça. Quando é para a sobrevivência, a caça, a pesca artesanal é justa. É a luta pela vida, tão naturalmente aceita pelos animais no mar e nas florestas. Não devemos perverter o natural, mas não devemos nos resumir a sacralizá-lo, devemos apenas saber conviver respeitosamente com o natural, a natureza.

Cada um de nós somos a nossa própria consciência e provocamos a mudança, seja de ações, seja de pensamentos, que queremos no mundo. Não precisamos apregoar nossas ideias como se fossem leis, bater de casa em casa desrespeitando o pensamento alheio, gritando nos ouvidos de quem não quer ouvir. Em 10 anos de vegetarianismo, aprendi que as mudanças mais sólidas e duradouras são lentas e silenciosas. Vi pessoas se transformarem porque eu me transformei, sem que eu dissesse uma palavra pra promover o vegetarianismo.

Enfim, entendo perfeitamente que sim, é possível ser a mudança que desejamos para o mundo, sem ambições, sem megalomania, sem pregação de casa em casa, discursos acalorados, paranoia, hashtags, campanhas publicitárias apelativas cheias de celebridades ou mídias sociais.

É simples, simplesmente ser.